Horário de visitas. Eu sabia por ouvir os cochichos dos menos loucos que eu que moravam do lado de fora.
Eis que abriu-se a porta.
Podia ter sido um médico com um sedativo, mas não era. Podia ter sido visita pra mim, mas não era.
Era só engano. Uma visita entrou no quarto errado. Antes de fecharem a porta, pude ouvir a doce senhora que a abrira por engano dizer ao enfermeiro ao seu lado:
- Pobre menina... Olhos tão bonitos mas tão distantes... O que a trouxe até aqui? Algum trauma? - ela olhou pesadamente para mim com as mãos sobre a porta semi-aberta - Como pode ser tão frágil a imagem da loucura?
- Não é nada frágil - disse-lhe enfim o enfermeiro fazendo-me justiça. - E nem tampouco louca. Pelo contrário. Chegou aqui porque era sã demais. - E a porta tornou a se fechar.
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sábado, 23 de outubro de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Idílio.
No princípio, era o nada. O desconhecido. O tudo a ser descoberto. Aquela expectativa disfaçada de segurança, escondendo por trás de uma fortaleza o medo de achar-se sem máscaras sob um holofote, num palco, frente à todos eles.
Que diriam eles, afinal, ao vê-la daquela forma?
Despida de seus cuidadosamente cultivados pudor e ingenuidade. Nua.
Sujeita à qualquer opinião estereotipada ou comentário maldoso.
Ah, pouco importava que diriam! O mais importante era lembrar do instante em que aqueles dois caminhos se cruzaram.
Formavam um estranho encaixe de tal forma perfeito que parecia ter sido talhado à mão por alguém inundado do mais puro sentimento.
O curioso dava-se no fato de as divergências serem muitas, e as bifurcações até o ponto de chegada, incontáveis.
Mas mesmo assim, com tudo indicando o contrário, os caminhos seguiram lado a lado.
E com o passar do tempo, como havia de ser, iam-se desmanchando ambas as fortalezas, mostrando espontaneidade em risos, lágrimas, abraços, cartas e afins. Tudo numa intensidade, veracidade e profundidade que, não havendo também um certo ar pueril, aquela situação beiraria o insuportável.
Mas eis que num dado momento, entre um riso nervoso e uma lágrima que caiu sorrateira, houve o silêncio. E a partir daí houveram vários silêncios.
Meia dúzia de insuportáveis segundos, onde, sem que se proferisse nenhuma palavra, era sabido que aquilo doía como uma eternidade de silêncios forçados.
Silêncio por não se saber o que dizer, embora houvesse clara necessidade.
Os silêncios se tornaram oscilantes, tal como toda e qualquer coisa que há num caminho de longa data.
E isso tornava a trajetória mais amena.
Acontece que a razão do silêncio já se modificara. Desaparecera, dera espaço à outra: as palavras não mais expressavam o tanto que havia a ser dito, fazia-o melhor o silêncio.
Mas devido ao desconforto causado por mais silêncio, este uniu-se ao medo, à dúvida, à fraqueza e ao desespero (pois se tratando dos caminhos aos quais me refiro, este último não haveria de faltar).
Tantos elementos silenciosos juntos só faziam o tal desconforto crescer, multiplicar-se e apavorar, fazendo parecer que se tratavam de caminhos sem saída.
Mas aí veio o beijo, tirar o espaço do silêncio. E ficou tudo bem.
Que diriam eles, afinal, ao vê-la daquela forma?
Despida de seus cuidadosamente cultivados pudor e ingenuidade. Nua.
Sujeita à qualquer opinião estereotipada ou comentário maldoso.
Ah, pouco importava que diriam! O mais importante era lembrar do instante em que aqueles dois caminhos se cruzaram.
Formavam um estranho encaixe de tal forma perfeito que parecia ter sido talhado à mão por alguém inundado do mais puro sentimento.
O curioso dava-se no fato de as divergências serem muitas, e as bifurcações até o ponto de chegada, incontáveis.
Mas mesmo assim, com tudo indicando o contrário, os caminhos seguiram lado a lado.
E com o passar do tempo, como havia de ser, iam-se desmanchando ambas as fortalezas, mostrando espontaneidade em risos, lágrimas, abraços, cartas e afins. Tudo numa intensidade, veracidade e profundidade que, não havendo também um certo ar pueril, aquela situação beiraria o insuportável.
Mas eis que num dado momento, entre um riso nervoso e uma lágrima que caiu sorrateira, houve o silêncio. E a partir daí houveram vários silêncios.
Meia dúzia de insuportáveis segundos, onde, sem que se proferisse nenhuma palavra, era sabido que aquilo doía como uma eternidade de silêncios forçados.
Silêncio por não se saber o que dizer, embora houvesse clara necessidade.
Os silêncios se tornaram oscilantes, tal como toda e qualquer coisa que há num caminho de longa data.
E isso tornava a trajetória mais amena.
Acontece que a razão do silêncio já se modificara. Desaparecera, dera espaço à outra: as palavras não mais expressavam o tanto que havia a ser dito, fazia-o melhor o silêncio.
Mas devido ao desconforto causado por mais silêncio, este uniu-se ao medo, à dúvida, à fraqueza e ao desespero (pois se tratando dos caminhos aos quais me refiro, este último não haveria de faltar).
Tantos elementos silenciosos juntos só faziam o tal desconforto crescer, multiplicar-se e apavorar, fazendo parecer que se tratavam de caminhos sem saída.
Mas aí veio o beijo, tirar o espaço do silêncio. E ficou tudo bem.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Fantasia.
Eu estava sentada, quieta, muito entretida na minha árdua tarefa de picar guardanapos - trabalho destinado à mim, pobre pagã, entediada no meio daquele cenário: vários palhaços vestidos de seres humanos.
Fantasiados de juventude.
As cores eram vibrantes e tudo parecia um sonho.
Mas era real. A música ao fundo me fazia ter certeza de que era real.
Eis que se aproxima de mim um folião galanteador. Seu rosto provavelmente era escondido por uma máscara.
Não seria possível tamanha beleza dentro do mundo real.
Sentou-se ao meu lado, e entoando belas cantigas fez-me levantar a cabeça e mirar seus olhos.
Involuntariamente: com a força da vibração da sua voz, suave como um sussurro. Seu olhar me fez lembrar de coisas que eu nem sabia que havia esquecido.
Então com uma de suas mãos tocou-me o rosto, que rapidamente se enrubesceu, como acontece por qualquer coisa.
Fechei meus olhos, e ao abri-los novamente, já me havia desvencilhado de seu beijo.
Fitou-me o rosto por intermináveis segundos sem pronunciar palavra alguma.
Meu coração ainda não voltara ao pulso normal.
Mas eis que os intermináveis segundos terminaram, e ele levantou-se, como fosse tudo planejado desde sempre.
Como fosse tudo aquilo muito natural.
E não deixou espaço para fantasia alguma na minha mente.
Não havia imaginação mais abrangente que aqueles nítidos instantes.
Entendi ali, naquele olhar, que tudo o que vivi até aquele momento valera à pena.
Por ele. Ninguém mais.
Hoje as cinzas invadem minha quarta feira, e eu provavelmente não voltarei a vê-lo.
Fantasiados de juventude.
As cores eram vibrantes e tudo parecia um sonho.
Mas era real. A música ao fundo me fazia ter certeza de que era real.
Eis que se aproxima de mim um folião galanteador. Seu rosto provavelmente era escondido por uma máscara.
Não seria possível tamanha beleza dentro do mundo real.
Sentou-se ao meu lado, e entoando belas cantigas fez-me levantar a cabeça e mirar seus olhos.
Involuntariamente: com a força da vibração da sua voz, suave como um sussurro. Seu olhar me fez lembrar de coisas que eu nem sabia que havia esquecido.
Então com uma de suas mãos tocou-me o rosto, que rapidamente se enrubesceu, como acontece por qualquer coisa.
Fechei meus olhos, e ao abri-los novamente, já me havia desvencilhado de seu beijo.
Fitou-me o rosto por intermináveis segundos sem pronunciar palavra alguma.
Meu coração ainda não voltara ao pulso normal.
Mas eis que os intermináveis segundos terminaram, e ele levantou-se, como fosse tudo planejado desde sempre.
Como fosse tudo aquilo muito natural.
E não deixou espaço para fantasia alguma na minha mente.
Não havia imaginação mais abrangente que aqueles nítidos instantes.
Entendi ali, naquele olhar, que tudo o que vivi até aquele momento valera à pena.
Por ele. Ninguém mais.
Hoje as cinzas invadem minha quarta feira, e eu provavelmente não voltarei a vê-lo.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
O menino que não sabia chorar.
Era uma vez um menino que nunca chorava. E tampouco precisava: tinha de tudo!
Morava em uma casa simples com seu pai, seu irmão mais velho e um adorado gato de estimação.
Todo dia, logo de manhã, o pai saía para trabalhar.
O irmaõ chegava um pouco depois da saída do pai, brincava com o menino e saía novamente, nunca se sabia para onde.
E quando os dois haviam ido embora, restava-lhe o gato para servir de companhia.
De tarde o menino ia para o colégio. Levava, em segredo, o gato dentro da mochila.
Não suportaria ficar sozinho.
E sentia que, naquela pobre escola, por mais cercado de gente que estivesse - e sempre estava - estava sempre sozinho. A não ser, é claro, pela presença do tal gato.
Quando a aula acabava, o menino ia direto para casa, voltar a ver seu pai e seu irmão.
Mas o pai nunca chegava antes de o sol ir embora.
Quase sempre o menino era recebido pelo irmãod, que lhe fazia companhia até o pai chegar.
O menino adorava o irmão Simplesmente não existia felicidade sem ele.
Quando o pai chegava, todos jantavam juntos. Em paz, enfim.
E logo depois do jantar, o menino ia para o seu quarto. Ele e o gato.
Os dois ouviam quietinhos a gritaria cotidiana entre o pai e o irmão.
Geralmente, o irmão batia a porta com força e o pai se jogava, exatasiado, num banquinho de madeira perto da janela.
O pai olhava o filho mais velho sumir noite adentro, e seu único consolo era saber que ele sempre voltava antes de o sol aparecer novamente.
O menino entendia tudo isso sem ninguém explicar. Há coisasa que simplesmente são.
E depois de um tempo, tornam-se até suportáveis.
Seu gato lhe ensinara isso - sem pronunciar palavra alguma.
Certo dia, o pai saiu e o irmão chegou - como de costume - ao nascer do sol.
E como de costume, o menino e seu gato foram à escola.
Ainda como de costume, ao voltar para casa o menino encontrou com o irmão.
O pai tardou a chegar e a fome apertou, então os dois jantaram sozinhos.
Não houve gritaria depois do jantar naquele dia, nem em nenhum outro dia a partir dali.
O menino nunca chorou por sentir falta do pai, mas sentia.
Sentia falta das broncas, dos abraços, dos olhares.
Sentia até vontade de chorar, mas não chorava.
Não sabia chorar e não sabia o porquê disso.
Tem gente que chora demais - pensava ele - aí não sobra choro pra mim.
E sua vida seguiu assim.
Ele e seu gato voltavam da escola e esperavam o irmão chegar.
Dia após dia, semana após semana, mês após mês.
Mas após alguns anos, o irmão não voltou mais.
Ninguém na pequena cidade sabia a razão ao certo, mas haviam rumores.
Cada um mais cruel que o outro.
O menino se trancou em casa por um tempo.
Não suportava ouvir os rumores. Lhe davam vontade de chorar.
Mas não chorou.
Trancou-se, pois, junto ao gato. Seu gato era seu porto, era sua paz.
Não havia, concluíra ele após algum tempo, razão para choro.
O menino teve força de homem. Destrancou-se de casa e voltou para à escola.
Vivia em meio a um torpor de um bege quase insuportável.
Mas enquanto aquele bege não fosse cinza, o menino ainda podia suportar.
Havia alguns anos que seu irmão desaparecera e o menino já fazia tudo automaticamente.
Um dia, esqueceu-se de levar o gato consigo da escola para casa.
Mas no dia seguinte, ao buscar o gato na escola, ele já não estava mais lá.
Nem em lugar nenhum, aparentemente.
O menino correu por toda a pequena cidade, passou pelas cidades vizinhas, distanciou-se de casa cada vez mais.
Correu de sol a sol, sem parar, em busca do gato.
Foi quando teve uma sensação inesperada: uma gota deslizava por seu rosto.
O menino apreciou aquele momento inédito em sua vida. Uma lágrima! - pensava.
Ficou tão feliz por enfim conseguir chorar que esqueceu-se até da tristeza.
Suas pernas já não mais lhe acompanhavam, e seu corpo deu a busca ao gato por vencida.
Deitou-se no chão árido que percorria e aproveitou aquele momento debaixo do escaldante sol dos trópicos.
Morava em uma casa simples com seu pai, seu irmão mais velho e um adorado gato de estimação.
Todo dia, logo de manhã, o pai saía para trabalhar.
O irmaõ chegava um pouco depois da saída do pai, brincava com o menino e saía novamente, nunca se sabia para onde.
E quando os dois haviam ido embora, restava-lhe o gato para servir de companhia.
De tarde o menino ia para o colégio. Levava, em segredo, o gato dentro da mochila.
Não suportaria ficar sozinho.
E sentia que, naquela pobre escola, por mais cercado de gente que estivesse - e sempre estava - estava sempre sozinho. A não ser, é claro, pela presença do tal gato.
Quando a aula acabava, o menino ia direto para casa, voltar a ver seu pai e seu irmão.
Mas o pai nunca chegava antes de o sol ir embora.
Quase sempre o menino era recebido pelo irmãod, que lhe fazia companhia até o pai chegar.
O menino adorava o irmão Simplesmente não existia felicidade sem ele.
Quando o pai chegava, todos jantavam juntos. Em paz, enfim.
E logo depois do jantar, o menino ia para o seu quarto. Ele e o gato.
Os dois ouviam quietinhos a gritaria cotidiana entre o pai e o irmão.
Geralmente, o irmão batia a porta com força e o pai se jogava, exatasiado, num banquinho de madeira perto da janela.
O pai olhava o filho mais velho sumir noite adentro, e seu único consolo era saber que ele sempre voltava antes de o sol aparecer novamente.
O menino entendia tudo isso sem ninguém explicar. Há coisasa que simplesmente são.
E depois de um tempo, tornam-se até suportáveis.
Seu gato lhe ensinara isso - sem pronunciar palavra alguma.
Certo dia, o pai saiu e o irmão chegou - como de costume - ao nascer do sol.
E como de costume, o menino e seu gato foram à escola.
Ainda como de costume, ao voltar para casa o menino encontrou com o irmão.
O pai tardou a chegar e a fome apertou, então os dois jantaram sozinhos.
Não houve gritaria depois do jantar naquele dia, nem em nenhum outro dia a partir dali.
O menino nunca chorou por sentir falta do pai, mas sentia.
Sentia falta das broncas, dos abraços, dos olhares.
Sentia até vontade de chorar, mas não chorava.
Não sabia chorar e não sabia o porquê disso.
Tem gente que chora demais - pensava ele - aí não sobra choro pra mim.
E sua vida seguiu assim.
Ele e seu gato voltavam da escola e esperavam o irmão chegar.
Dia após dia, semana após semana, mês após mês.
Mas após alguns anos, o irmão não voltou mais.
Ninguém na pequena cidade sabia a razão ao certo, mas haviam rumores.
Cada um mais cruel que o outro.
O menino se trancou em casa por um tempo.
Não suportava ouvir os rumores. Lhe davam vontade de chorar.
Mas não chorou.
Trancou-se, pois, junto ao gato. Seu gato era seu porto, era sua paz.
Não havia, concluíra ele após algum tempo, razão para choro.
O menino teve força de homem. Destrancou-se de casa e voltou para à escola.
Vivia em meio a um torpor de um bege quase insuportável.
Mas enquanto aquele bege não fosse cinza, o menino ainda podia suportar.
Havia alguns anos que seu irmão desaparecera e o menino já fazia tudo automaticamente.
Um dia, esqueceu-se de levar o gato consigo da escola para casa.
Mas no dia seguinte, ao buscar o gato na escola, ele já não estava mais lá.
Nem em lugar nenhum, aparentemente.
O menino correu por toda a pequena cidade, passou pelas cidades vizinhas, distanciou-se de casa cada vez mais.
Correu de sol a sol, sem parar, em busca do gato.
Foi quando teve uma sensação inesperada: uma gota deslizava por seu rosto.
O menino apreciou aquele momento inédito em sua vida. Uma lágrima! - pensava.
Ficou tão feliz por enfim conseguir chorar que esqueceu-se até da tristeza.
Suas pernas já não mais lhe acompanhavam, e seu corpo deu a busca ao gato por vencida.
Deitou-se no chão árido que percorria e aproveitou aquele momento debaixo do escaldante sol dos trópicos.
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