sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Idílio.

No princípio, era o nada. O desconhecido. O tudo a ser descoberto. Aquela expectativa disfaçada de segurança, escondendo por trás de uma fortaleza o medo de achar-se sem máscaras sob um holofote, num palco, frente à todos eles.
Que diriam eles, afinal, ao vê-la daquela forma?
Despida de seus cuidadosamente cultivados pudor e ingenuidade. Nua.
Sujeita à qualquer opinião estereotipada ou comentário maldoso.
Ah, pouco importava que diriam! O mais importante era lembrar do instante em que aqueles dois caminhos se cruzaram.
Formavam um estranho encaixe de tal forma perfeito que parecia ter sido talhado à mão por alguém inundado do mais puro sentimento.
O curioso dava-se no fato de as divergências serem muitas, e as bifurcações até o ponto de chegada, incontáveis.
Mas mesmo assim, com tudo indicando o contrário, os caminhos seguiram lado a lado.
E com o passar do tempo, como havia de ser, iam-se desmanchando ambas as fortalezas, mostrando espontaneidade em risos, lágrimas, abraços, cartas e afins. Tudo numa intensidade, veracidade e profundidade que, não havendo também um certo ar pueril, aquela situação beiraria o insuportável.
Mas eis que num dado momento, entre um riso nervoso e uma lágrima que caiu sorrateira, houve o silêncio. E a partir daí houveram vários silêncios.
Meia dúzia de insuportáveis segundos, onde, sem que se proferisse nenhuma palavra, era sabido que aquilo doía como uma eternidade de silêncios forçados.
Silêncio por não se saber o que dizer, embora houvesse clara necessidade.
Os silêncios se tornaram oscilantes, tal como toda e qualquer coisa que há num caminho de longa data.
E isso tornava a trajetória mais amena.
Acontece que a razão do silêncio já se modificara. Desaparecera, dera espaço à outra: as palavras não mais expressavam o tanto que havia a ser dito, fazia-o melhor o silêncio.
Mas devido ao desconforto causado por mais silêncio, este uniu-se ao medo, à dúvida, à fraqueza e ao desespero (pois se tratando dos caminhos aos quais me refiro, este último não haveria de faltar).
Tantos elementos silenciosos juntos só faziam o tal desconforto crescer, multiplicar-se e apavorar, fazendo parecer que se tratavam de caminhos sem saída.
Mas aí veio o beijo, tirar o espaço do silêncio. E ficou tudo bem.

4 comentários:

beatriz albarez disse...

Que profundo lu ! (:

thatiix disse...

Vida Real ?
Lindo, bebê.. De verdade

thatiix disse...

Vida Real ?
Lindo, bebê.. De verdade

Cris Souza disse...

Obrigada por gostar do Conto "Espelho D'Água".
É um prazer enorme inventar cada parte e passar tudo para a Tati de uma forma que ela possa descrever do jeito peculiar dela aquilo que eu pensei. É uma parceria que dá muito certo.